10.5.07

Aviso

(a quem interessar possa II)

Rubem Garcia - O Coringa

A quem interessar possa...

A farsa por aqui,

Já cheira a fossa...

Exaure a força,

Encurta a prosa.

A unha era vermelha,

O rosto rosa,

Deixa um rastro de perfume,

A casa cheia,

Muitos convivas para a ceia,

Migalhas da sua sobra,

Escombros da minha sombra,

Sombreiros pelas encostas,

Janelas às minhas costas,

No azul de metileno,

Estrelas entrecortadas,

Não brilham sem ter escuro,

Não sabem qualquer resposta,

A verdade que foi criada,

Calada e pouco disposta.

7.5.07

Notas Dissonantes

Rubem Garcia - o Coringa

Conforta aqui sua tristeza nova...

Manda as mazelas empoeiradas para os quintos...

Manda aos infernos as maquinações modernas...

Apressada por se trancar na caverna...

Na luta diária, Na agonia eterna...

Na sinfonia de cordas frouxas,

Tocada pela orquestra desmazelada,

Numa cidade desdentada fria e muda...

Um cinza que nos Oprime...

Um concreto que nos Amiúda...

Uma distância que nos afasta...

Uma cilada que nos basta,

Um cadafalso, um calabouço,

Uma afronta qualquer do destino,

Um parvo que nos fura os olhos,

Um tolo agredindo os tímpanos,

um tango argentino...

Esmeraldas engastadas na desgraça,

Enfeitando e ao mesmo tempo poluindo.

4.5.07

Uma Luz Ascende

(lodo e fogo fátuo)

Rubem Garcia _ O coringa

Deve ser algo com o fluxo energético,

Ou mesmo princípio ético,

Explicação metafísica...

A TV nos comandando na dinâmica,

Diluídos os progressos da ciência,

A controlar massas de mentes tísicas,

Anômalas segundo código genético,

Acéfalas, próprias para o consumo prático.

Seu exaltado tom de voz é bem enfático,

O resultado… um tanto quanto melancólico.

A argumentação de um velho mito folclórico,

Distorcida pelo efeito hipnótico.

No bordejar e desejar manter a ótica…

Satã Católico assoprando-lhe a espinha...

Erva daninha escapando do arado.

Deixa um legado imprestável ao meio todo,

Um mal fadado cheiro de coisa morta…

Um mal cheiroso fado lá de Lisboa.

12.4.07

A cega
Rubem Garcia - O coringa

De vez em quando eu penso em ser ladino...
Ladrar nos mundos, feito cão sem dono...
Instantes antes de tal abandono,
A cega me traga sorrindo...

vez por outra desejo ser moderno...
Ser prolíxo, contemporâneo, extemporâneo, liberto,
E toda vez que estou perto,
A cega me bica o fígado num suplícito eterno...

As vezes quero, outras eu tenho,
O sonho mais cálido, o gesto mais tenro, O suspiro mais denso,
E quanto mais eu ganho, tanto mais eu perco, muito mais eu penso,
E a cega me joga no chão de onde venho...

Das muitas vezes que quis ser sozinho,
Muitos comentaram, muitos complicaram,
Poucos escutaram, poucos entendeream...
E a cega retirou meu pequeno mundinho.
ORAÇõES DO ALTAR PROFANO
Rubem Garcia – O coringa

Soube de um beijo...
E ainda sinto fria a boca...
Tão longe que foi sua pele,
Tão perto estiveste na noite...
Em que a lua despiu-se, ,louca,
Como uma santa sob meus pés...


Pernas caminharam mundos...
comeram léguas ao longo dos anos...
tão longe ficou a pele,
tão perto de ser memória,
da lua esmaecida,
ciente de seus enganos,
como uma santa a meus pés...

Movimentos celestes, conspiração,
Movendo as pás do moinho,
Marés nas calhas da roda,
Maré em seu fluxo contínuo,
Transmutando água em vinho...
Como uma santa sob meus pés...

Tanta verdade, tanta alegria,
Surgida num instante breve,
Tão perto da tela fria,
tão certo o frio do inverno,
Febril qual carícia breve,
Daquela santa sob meus pés...

24.1.07

A Praça do Cantor
Rubem Garcia - O Coringa


Sou mais um que não reclama da vida...
Homem que não tem rancor.
Sorte, dor, amor e gozo...
no salto da porta bandeira.
Sorte, dor, amor e gozo,
no susto de uma tarde inteira
naquela praça.
No cinza de um olhar distante daquela praça.
Famílias entretendo os filhos naquela praça...
Eu penso e passo o desatino...
E sou mais um que não reclama da vida...
homem que não tem rancor.
Que não sai de onde veio,
ainda que um senão o afasta.
Que não sai de onde veio,
um Sol a meia luz, já gasta
naquela praça!
No cinza de um olhar distante daquela praça!
Famílias entretendo os filhos,
naquela praça...
eu tenso e a vida passa ao longe,
naquela praça...
prum samba que me convidou!

1.1.07

PREMISSAS
Rubem Garcia – o coringa

Pura preguiça de pegar um pote,
Para por as pedras do porto...
Puro o punhal para pouca pena,
Pintam as parênteses no ponto,
Prevejo primeiro encontro,
Planejo próximação.
Premeditada penetração...
Prognóstico pós preparado,
Punhos propensos,
Premonição...
Primeiro dia do ano,
Primeiros planos,
Precisão predileta.
Primeiro pagão no palácio,
Lacraia de pasto,
Penetra de festa...