26.3.11

Tá ficando
(atoladinho)

Maia

Paga o que te faltas em moedas
e não tentes comprar com favores.
Pouco importa quem ouve suas dores,
outras as cores,
outra era a festa
Se cansou de viver do que resta,
de ver pela fresta
esse mundo mesquinho...
Onde vizinho odeia vizinho
e paga na rede por tanta carência.
Compensação para o que te pesa
ou que não pensa...
mas cedo ou tarde bate na porta.
O fantasma da natureza morta,
do seu passado,
com o jogo de dados
do teu destino.
Sorriso de um cinismo cretino,
fixo nos lábios,
conselhos sábios,
palavras tolas,
e planos desfeitos...
mãos postas no derradeiro leito,
a sós com teus defeitos,
com teus desmandos
aguarde de um derradeiro comando
pois só te resta arrumar a bagunça,
arrancar pele de onça,
largar o peso do medo todo,
do mundo inteiro...
viver à procura de dinheiro
preso no lodo,
atoladinho...

21.2.11

Ressaca

Maia

Ela vai chorar a noite inteira
porque eu perdi tudo no pôquer
numa noite de bebedeira...
ainda passei em casa suspeita
que fica no fim da ladeira
e só cheguei contando os cacos
na manhã da quinta feira.
Ela vai gritar e espernear,
vai atrasar o meu almoço
e preferir me ver rolar
na lama do fundo do poço.
Me querer preso,
me querer morto,
mas o meu preço
é o peso em ouro...
Peso de touro.
Vai merecer o meu sumiço
e, cedo ou tarde,
bem mais que isso.
Vai perecer no meu recesso,
no meu regresso,
Nos meus excessos,
no meu estado.
Ela vai sorrir,
dizer bobagens,
como sempre faz nos fins de tarde.
Os dias passarão sem mais alarde.
Eu, passarinho
quintaneando,
canto um tango
cá no meu ninho...
Tragédia grega
não assisto sozinho
e a vizinhança
já me percebe.

17.2.11

Fractal

Maia

Amanhã vira ontem
e a gente nem percebe,
mas agora
é o tempo inteiro...
e passa boi,
passa boiada,
as noites em cavalgada...
centenas de madrugadas,
centelhas.
Amanhã vira ontem
nas manhãs por sobre as telhas,
no primeiro grito do galo
e no berro das ovelhas
a caminho da igreja.
Peço que pare,
observe,
veja...
Muito mais importante
que a marca do alvejante
é o pano que alveja...
e o cheiro é reconfortante,
o brilho de um diamante,
o toque da minha amante,
o frescor de uma gota de orvalho.
Acredite,
é do caralho!
Uma descoberta a cada dia
e cada noite de agonia,
cada sobra de pesadelo
é um morcego
embaraçado no seu cabelo,
uma cabeça de nego.
Pecado, rifa e revista
são fardos que pago a vista...
Alma de artista,
corpo de sátiro,
cinismo de santa - puta
que nunca exita
em deixar recado.

5.2.11

Lição de Van Dame

Maia

Jamais lutar pelo amor de outro
Jamais lutar e se render
Jamais negar
e nunca
nunca retroceder

22.1.11

Òké Aro!!! Arolé!
(sou caçador)

Maia


Por trás das sombras
deste canto escuro,
tantos ais por trás dos muros,
degredos e portos seguros,
tantas presas, tantas feras,
tantas cabeças na quimera...
tanto se caça ou se é caçado.

por baixo das sobras
deste estranho mundo...
o fim do ciclo brahmânico,
um fenômeno termodinâmico,
uma rapidinha, ou sexo tântrico?
Uma escolha simples, ou não?

por sobre os escombros
deste novo projeto...
um novo leito, um novo teto,
um desígnio secreto do orixá...
uma explosão de supernova,
o gozo da viúva ao pé da cova
antes mesmo da extrema-unção

Por trás das formas
deste ostracismo...
A pura falta de juízo...
versos tortos, de improviso
e de pé quebrado...
depois de cair do telhado
da casa da minha infância
da rua na adolescência


Por trás das notas
desta nova sinfonia...
cair numa noite vadia,
de muita folia e disposição,
que trago em meu relicário;
em mais um trago de cigarro,
em mais um sarro
no banco de trás do carro,
em mais uma noite no terreiro

Por trás das contas
faço votos para um jogo de búzios...
onde Oxóssi me empreste seu ofá
e eu possa expandir minhas fronteiras.
Trazer fortuna à minha feira.
Cuidar da minha tribo inteira...
do povo da minha aldeia

29.12.10

Coisa de pouca importância

Maia

Nada importa...
nada importa...
o mar,
navegar,
a sua porta...
lua cheia,
rua cheia,
a hora morta...
a espada,
o papel,
a faca que lhe corta.

Nada importa...
nada importa...
o vazio,
o frio,
o sangue na aorta...
a represa,
a natureza,
a abertura da comporta...
o segredo,
o medo,
a mente que surta...