29.9.14

DemoKratia
(não é Vídeo-Game)
Maia

Num estado de opressores e oprimidos,
Se escolhe o próximo opressor

com um clique de botão...

25.9.14

Picolé
(pra esquimó)


Maia


Mandei fazer um broquel
e vou sair pelo mundo
a combater
infiel por infiel...
até a fé perecer.
Montado no meu cavalo,
que se chama carrossel
e se vende por um afago,
desafogo num intervalo.
Movimento circular,
uniforme e variado...
havido esse desacato
no meio do mato,
cá estou para colher os louros.
Mandei fazer um anel
para que mostres a todos
ou então te marcar a ferro quente.
Dono de gado-gente,
vaqueiro de gado-povo,
pastor de ovelhas...
escolhe matar as velhas,
comer as novas,
capar os machos...
colocar pregos nos assentos
do banco da igreja
e pedir encarecidamente

que tu não vejas.

18.8.14

Fazes da morte

Maia

Lobo em pele de cordeiro
que se revela
do galã da novela
ao advogado do balcão.
Escravos da nossa incompetência
em ser Nação...
Devotos de Não sei que Senhora
da Contra-Revolução...
Metáfora
para esconder o golpe
de mil novecentos e sessenta e quatro
e seus crimes de Desmando...

porque não havia guerra.

20.7.14

Pra quem não vê
(Rubem Alves e João Ubaldo)
Maia

Deixa estar...
hei de acelerar o passo
e estancar a beira do precipício.
Por um princípio mecânico
permanecer uniforme
em movimento retilíneo.
Envolvimento mínimo...
não suporto mais qualquer atrito.
Se ninguém quer escutar meu grito,
não é por isso que eu devo ficar calado.
Acomodado à sombra de um passado,
dos mal acabados que não tem futuro.
O Sol clareou meu quarto escuro
pela última vez, nessa madrugada.

Deixe estar...
Hei de tecer comentários infames,
esquecer eventos, datas e nomes
dos que não saciam minha fome.
Socialmente ínfimos...
Não apetece mais qualquer banquete,
uns que compram joguinhos,
outros barganham boquetes,
e somos marionetes do inconsciente coletivo.
O monstro sist está vivo
atacando na televisão,
no horário político,
em plena novela das oito.
Não vão mais servir biscoitos,

nem leite quente pra chamar o sono.

1.4.14

Roupas curtas
(dos homens que gostam de mulher)

Maia

“tua” para cuidar
“tua” para ser amada
Basta violência!
Não merece ser estuprada.
“dela” para protegê-la
“dela” para respeitá-la
jamais para tomar à força
jamais para estuprá-la.
Acorda homem da caverna,
as fêmeas em debandada
cansaram de tanta peia,
de tanta quimera...
tantos ecos, tantos socos,
engolir as lágrimas em seco
e sorrir ao mundo sem soluços.
Elas se cansaram de deitar de bruços
e abrir as pernas ao teu contento.
Acorda homem da caverna,
também já foste filho de um estupro...
Pagas por não saber a verdade:
Cada gota do sangue delas
custa a mesma dor na tua carne,
custa o mesmo Karma à humanidade
e custa muito menos evitá-la...
a mulher é toda dela,
e aceitá-la
é a única parte que te cabe
desse latifúndio.

19.3.14

Boas Intenções

Maia

Eu, mundo do foi
e jamais será um dia...
contemplo a mais triste estória
da mais completa alegria...
Dando a mão, a palmatória,
a cara da melodia,
caminho mundo a fora.
Metáfora, alegoria
de um recém-alforriado servo,
sem senhor, sem serventia...
Sempre cego no que corre
solto, á minha revelia...
Sempre escravo no que morre...
despeito, difamação, arritmia.
Desprezo que pode causar impacto
no pacto da economia,
no pacote do mercado,
na fila da filantropia.
Na ânsia em dar o recado
o conteúdo atrofia...
Todo o resto...
resta...

prejudicado.

10.3.14

Cego no Rio de Janeiro
(na boca do lixo da Lapa)

Maia

Não o fato do nos armarmos
mil vezes mais que a razão
da nossa vã misantropia
não suporto
Pregação de filantropo
Se o papo for por ai
eu não topo
retórica de demagogo
eu combato com fogo
eu descubro no faro
estraçalho e cuspo
sou cachorro do mato
mas de fino trato
domesticado entre aspas
mas sem xampu pra caspa
ou talco pra pulga
uma coisa me intriga
a tua ruga
na testa
a morte
estampada
no meu olho esquerdo
o meu medo
o último samba
que sobra

do teu enredo.