10.6.11

Sonare

Maia

Em tua boca
a minha...
a boca...
a intensa privação de sentidos.
As linhas
mal traçadas dos teus gemidos...
o meu destino.
O tempo, clandestino,
escorrendo em gotas largas
pelo teu pescoço.
Inquietas mãos postas
pelas costas largas,
pelo teu dorso
rasgam véus.
Os teus pelos,
eriçados pelos meus apelos,
denunciam suaves intenções...
desejos secretos...
De amarrar ao pé da cama,
e ser objeto,
animal de estimação, escravo...
Cativeiro, privação...
apenas mais um parvo
no enredo lúbrico da tua ilusão...
Sacrificado ao teu deleite,
ao teu desfrute,
ao seu requinte.
O servo fiel do teu reinado...
Chama-te somente amor para ser de novo batizado!

7.6.11

Outra por ti

Maia

Não é mais noite
já o Sol incendeia
já o instante clareia
já é outra por ti
Um regalo
aproveito e me calo
falo mais por meu falo
é outra por ti
Luz na terra
a verdade me erra
e desperta-me a fera
e foi outra por ti
ou me cegas
o condão que me negas
do luto que que carregas
ou foi outra por ti
cem mil anos
labirintos ciganos
serão muitos enganos
serão muitas as cegas
serão muitos os cortes
de navalha na carne
até os ossos do peito
serão muitos defeitos
mundo polarizado
serão muitos os lados
serão muitas por ti.

14.5.11

Manhã desfeita em partes

Maia

De pernas para o ar
parte
e como é tarde
está extinta a aurora
como a arte
a mente arde
Parte
como quem esteve outrora
um pouco antes
destarte
distante de quem te carpe
Parte
em ruas tão poluídas
em vias obstruídas
quem poderia estar antes
parte sempre tão fulminante
no pouco tempo restante
no relógio da parede
no retrato da estante
no instante
marcado
à sombra de uma partida

6.5.11

Ilustre desconhecido

Maia

Quem é esse anjo antigo
que me encara no espelho?
Esse rosto marcado,
esse anjo de olhos vermelhos?
Sem dúvidas muito mais velho
esse ilustre desconhecido...
que caminhos há percorrido
até ter comigo...
nesse quarto escuro,
nesse tempo sombrio?
Onde o ar é impuro,
o coração vazio
e a dieta, nada saudável!
Sabor inacreditável!
Amor de boneca inflável,
incomensurável paixão...
partiu tão desiludida
para outra vida
perto dos mortos...
meus velhos caminhos tortos
me conduziram
do nada ao nada...
ao meio da encruzilhada.
Aos pés da Santa Cruz...
do Santo Menino Jesus
ajoelhei e senti o peso
e perdi o medo
de saber o costume
e olhar a norma
e às vezes manter a forma
manter a pose...
mesmo coberto de estrume.
Morrer de ciúme
enquanto fode a “mulher dos outros”...
Aquele que me encara
ri na minha cara
no meio do espelho...
Aquele diabo de olhos vermelhos
Aquele demônio, aquele cretino...
o rugido me espanta,
mas me encanta
o sorriso lindo.
O mesmo que vi menino
a minha mãe sorrir um dia...
e de pensar, até faria
aquilo tudo, tudo de novo,
mas realçando o sabor do novo.
É esse homem,
frente ao espelho...
limpando os olhos vermelhos,
clareando a vista, exaurindo a fumaça.
Sabendo que tudo passa … nada passará.

26.3.11

Tá ficando
(atoladinho)

Maia

Paga o que te faltas em moedas
e não tentes comprar com favores.
Pouco importa quem ouve suas dores,
outras as cores,
outra era a festa
Se cansou de viver do que resta,
de ver pela fresta
esse mundo mesquinho...
Onde vizinho odeia vizinho
e paga na rede por tanta carência.
Compensação para o que te pesa
ou que não pensa...
mas cedo ou tarde bate na porta.
O fantasma da natureza morta,
do seu passado,
com o jogo de dados
do teu destino.
Sorriso de um cinismo cretino,
fixo nos lábios,
conselhos sábios,
palavras tolas,
e planos desfeitos...
mãos postas no derradeiro leito,
a sós com teus defeitos,
com teus desmandos
aguarde de um derradeiro comando
pois só te resta arrumar a bagunça,
arrancar pele de onça,
largar o peso do medo todo,
do mundo inteiro...
viver à procura de dinheiro
preso no lodo,
atoladinho...

21.2.11

Ressaca

Maia

Ela vai chorar a noite inteira
porque eu perdi tudo no pôquer
numa noite de bebedeira...
ainda passei em casa suspeita
que fica no fim da ladeira
e só cheguei contando os cacos
na manhã da quinta feira.
Ela vai gritar e espernear,
vai atrasar o meu almoço
e preferir me ver rolar
na lama do fundo do poço.
Me querer preso,
me querer morto,
mas o meu preço
é o peso em ouro...
Peso de touro.
Vai merecer o meu sumiço
e, cedo ou tarde,
bem mais que isso.
Vai perecer no meu recesso,
no meu regresso,
Nos meus excessos,
no meu estado.
Ela vai sorrir,
dizer bobagens,
como sempre faz nos fins de tarde.
Os dias passarão sem mais alarde.
Eu, passarinho
quintaneando,
canto um tango
cá no meu ninho...
Tragédia grega
não assisto sozinho
e a vizinhança
já me percebe.