23.5.10

O sono dos Justos

Maia

desfaleço
como quem morre a cada sábado
a cada ciclo da lua
como fenece o desejo
trancado a sete chaves
entre quatro paredes

desfaleço
como quem morre em cada madrugada
em cada hora vazia de insônia
como desmaia o desejo
roto, esmaecido,
de cansaço e tédio

é sempre tarde quando acordo
no susto
é sempre tarde quando a verdade
assusta
é sempre tarde para lamentar

cerras-te os olhos e as travas
da porta
a Nau que veio a soçobrar
sem porto
parte sem rota nova vislumbrar

desfaleço
como quem morre a cada evento
de caos desse universo intenso
para renascer em dado momento
mais propício a novos olhares
livres de velhos ressentimentos

19.5.10

feira de importados
Maia

momentos de pouca satisfação
Teus dedos ficaram marcados
buscando tatear a solução
perdida numa feira de importados

opõem-se a minhas manhãs frias
um número sem conta de pecados
cobrados pela cifra do teu dia
perdida numa feira de importados

deviam importar nova razão
ou alguma emoção menos vazia
protegida do inimigo logo ao lado

devias consultar teu coração
para evitar uma saudade tão tardia
perdida numa feira de importados

2.5.10

Matéria atrai matéria
(Você quer parar o tempo... o tempo não tem parada - A. Valença)

Maia


Hoje o dia não nasceu.
O Sol não me aqueceu.
A comida não desceu.
O dia não teve graça...

Não teve gosto no som.
A harmonia mudou de tom.
O ritmo não ficou bom.
O samba mudou de praça...

Hoje o gato me arranhou.
A espera não acabou.
A tarde me pirraçou,
fingindo que o tempo passa...

Fugiu outra vez a musa,
por trajetória obtusa,
quadrado da Hipotenusa
na razão direta das massas.